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Duas rainhas e o poder

Na peça Maria Stuart, o dramaturgo alemão Schiller trata da universalidade dos sentimentos

Julia Alquéres

"Mais fácil fora que se acomodassem a água e o fogo,
Que amorosamente cordeiro e tigre se beijassem...
Entre nós duas não haverá conciliação que valha"
 
É com este discurso amargo que Maria Stuart refere-se à inimiga Elizabeth I na peça de Friedrich Schiller (1759-1805). Na vida real, as duas rainhas, da Escócia e da Inglaterra, respectivamente, travaram uma violenta disputa pelo poder no fim do século 16, mas nunca se viram. É Schiller, em sua obra escrita entre 1799 e 1805, que promove aquele que teria sido o encontro entre as duas mulheres.
 

                                                                                João Caldas

Schiller: "Quero tratá-la [Maria Stuart] como uma criatura de instintos naturais"

 
Na Escócia, uma rainha católica influenciada pela França, pela Espanha e pelo Papa. Na Inglaterra, uma Elizabeth I protestante, adepta das ideias da Contra-reforma. Duas rainhas com posições diferentes, que se sentiam donas ou aspiravam comandar os dois reinos. Acusada de matar o marido e de conspirar a morte de Elizabeth I, Maria Stuart foi presa na Inglaterra. A peça acontece neste período de cárcere da escocesa, quando se desenrolam os conflitos na tentativa de definir o destino de Stuart.
 
Em uma trama que mistura ódio, amor, amizade, falsidade, sexo, fraqueza, mas, antes de tudo, a ambição humana, duas rainhas desencadeiam muitas mortes em busca de soberania. Ambas viveram momentos históricos que muito se diferenciam daqueles que passamos hoje. Mas, se há algo universal no mundo dos homens, são alguns sentimentos. E foram eles que Schiller conseguiu traduzir muito bem em seu texto; Manuel Bandeira em sua tradução; e Julia Lemmertz e Lígia Cortez em suas interpretações. Duas mulheres que, ao longo de mais de três horas, interpretam um texto poético escrito em terceira pessoa.
 
Mais do que a história real, Schiller retrata em sua peça sentimentos humanos universais. Em carta escrita para Goethe, o dramaturgo alemão parecia ter mesmo a intenção de expressar as emoções humanas: "A minha Maria não provocará  enternecimento, não está isso em minhas intenções. Quero tratá-la do começo ao fim como uma criatura de instintos naturais, e o patético que ela produzirá terá antes as características de uma emoção profunda de natureza geral do que as de uma simpatia pessoal a um indivíduo. Não desperta em ninguém nada que se pareça com sentimentalismo. O seu destino é sentir por conta própria e desencadear em torno de si paixões violentas. Só a sua ama sente por ela o que se chama ternura".
 
Maria Stuart
Friedrich Schiller
Sábados às 21h e domingos às 19h
Teatro Sesc Anchieta (SESC Consolação - SP)
Até 25/10
R$ 20

 
 
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